No evento NextGen in Health – Shaping knowledge and technology to redefine health, especialistas de diferentes áreas reuniram-se para debater o futuro da saúde, num encontro que juntou talento, ciência e tecnologia com um objetivo comum: criar soluções com impacto real na vida das pessoas.
Moderada por Sara Tainha, a sessão percorreu alguns dos principais eixos da inovação em saúde, desde a integração da robótica no bloco operatório, com cirurgias transmitidas em tempo real para hospitais a centenas de quilómetros de distância, aos capacetes com realidade aumentada, passando pela Inteligência Artificial (AI), pela sensorização aplicada à monitorização de doentes em tempo real e pela próxima geração de drones ao serviço da saúde.
O encontro teve ainda a medicina aeroespacial em destaque, mostrando como a tecnologia médica espacial continua a expandir horizontes e como o conhecimento adquirido pode inspirar soluções médicas avançadas aplicáveis na Terra.
Realidade aumentada e 5G já estão a transformar o bloco operatório
A primeira mesa redonda do NextGen in Health colocou as atenções na rapidez com que a robótica, a realidade aumentada e a conectividade 5G estão a transformar o bloco operatório, tecnologias que já estão a ser testadas em contexto clínico real.
Durante o debate, Bernardo Nunes, responsável pelo projeto do Capacete Cirúrgico do 4LifeLAB, desvendou a demonstração recente realizada entre o Hospital de São João e o Hospital de Macedo de Cavaleiros. “Utilizámos um capacete cirúrgico com realidade aumentada que permitiu que, a cerca de 170 quilómetros de distância, outros profissionais acompanhassem e interagissem com o procedimento em tempo real”, explicou, sublinhando que o cirurgião teve acesso ao planeamento cirúrgico sem desviar o olhar do doente.
Também Elisabete Barbosa, da ULS São João, sublinhou a importância da integração tecnológica. “O futuro não é apenas a cirurgia robótica. É termos sistemas que comuniquem entre si, com navegação cirúrgica, realidade aumentada e plataformas integradas”, afirmou, defendendo que este caminho é essencial para blocos operatórios mais modernos e seguros.
Com mais de três décadas de experiência clínica, Elisabete Barbosa mostrou-se otimista. “Estamos numa era de mudança e modernização. A tecnologia já está a transformar o SNS e essa transformação é irreversível”, concluiu.
Inteligência Artificial e sensores abrem caminho a uma medicina mais integrada
A segunda mesa redonda evidenciou o papel crescente da Inteligência Artificial e da sensorização na evolução dos cuidados de saúde, com impacto direto na monitorização dos doentes, no diagnóstico e na tomada de decisão clínica.
Para José Artur Paiva, do 4LifeLAB, a grande mudança está na forma como os dados passam a ser utilizados. “Durante anos investimos sobretudo em modelos preditivos. Hoje, os novos modelos de Inteligência Artificial permitem ir mais longe, ajudando-nos a raciocinar e a construir hipóteses clínicas”, explicou. O médico sublinhou que o verdadeiro desafio não está apenas no desenvolvimento da tecnologia, mas na sua integração na prática clínica. “Para adquirir dados é preciso investir em sensorização, mas qualquer investimento tem de ter retorno clínico. A investigação tem aqui um papel absolutamente central”, afirmou, apontando para a necessidade de uma abordagem menos fragmentada entre especialidades.
José Artur Paiva alertou ainda para a necessidade de quebrar silos dentro do sistema de saúde. “Não podemos continuar a olhar para áreas clínicas de forma isolada. A IA permite-nos ligar informação e chegar a conclusões de outra forma”, acrescentou.
A mesa reforçou, assim, a ideia de que a digitalização só cria valor quando é acompanhada por validação científica, interoperabilidade e utilização efetiva das soluções tecnológicas no contexto real dos cuidados de saúde.
Drones e mobilidade aérea prometem respostas mais rápidas em emergência médica
A terceira mesa redonda do NextGen in Health centrou-se na airborne medicine, explorando o impacto dos drones e da mobilidade aérea na logística e na emergência médica, um domínio considerado decisivo para salvar vidas.
Jorge Sousa, da ULS São João, destacou a importância do tempo na resposta clínica. “Na saúde, o tempo salva vidas. Conseguirmos reduzir minutos numa emergência pode fazer toda a diferença no desfecho clínico”, afirmou, referindo o potencial dos drones no transporte rápido de material médico e biológico.
Do lado do 4LifeLAB, Rui Cerqueira revelou que “já está em fase de construção o primeiro vertiporto do país numa instituição do SNS, que permitirá testar operações reais com drones em contexto de saúde”, acrescentando que esta infraestrutura abre novas possibilidades para a resposta em emergência.
A perspetiva industrial foi trazida por Isabel Furtado, presidente do CEiiA, ao defender uma visão mais ampla da acessibilidade aos cuidados de saúde: “a emergência médica não depende apenas dos profissionais de saúde. Depende também dos meios que nos permitem chegar mais rápido às pessoas, e os drones fazem parte dessa solução”, declarou. A responsável destacou ainda o impacto ambiental destas soluções: “um drone elétrico tem uma pegada ecológica incomparavelmente menor do que uma ambulância ou um helicóptero, o que torna este modelo mais sustentável”.
A Medicina Espacial inspira o futuro da saúde em terra
A encerrar o evento, Sergi Vaquer Araujo, Medical Team Leader da Agência Espacial Europeia, trouxe uma perspetiva internacional sobre a ligação entre medicina espacial e cuidados de saúde na Terra.
Dirigindo-se à audiência, o responsável deixou elogios à inovação nacional: “Portugal tem as pessoas certas, a atitude certa e a infraestrutura certa. O que está a ser feito aqui com o 4LifeLAB é um excelente exemplo de cooperação bem-sucedida”, referiu.
Sergi Vaquer explicou que muitas das tecnologias desenvolvidas para ambientes extremos acabam por ter aplicação direta na saúde. “Na medicina espacial, a robustez é essencial. Precisamos de tecnologia que funcione em condições extremas, porque é isso que salva vidas”, sublinhou, referindo sistemas de monitorização e telemedicina usados em missões espaciais.
A intervenção terminou com uma mensagem clara: “O conhecimento que desenvolvemos no espaço existe para beneficiar toda a humanidade. A medicina do futuro constrói-se hoje, através da colaboração e da inovação aplicada”.
O Expresso acompanhou a participação especial de Sergi Vaquer Araujo, entrevistando o médico à margem do evento. Entrevista completa aqui.


